domingo, 12 de dezembro de 2010

A PERFORMANCE DO HÍBRIDO: CORPO, DEFICIÊNCIA E POTENCIALIZAÇÃO

                                                                                                                               Valnei de Souza Novaes


Inseridos numa dada cultura o corpo objeto sócio-cultural que representa essa mesma sociedade está sempre sujeito a avaliação de seus membros. Há em cada sociedade modelos de corpos que são considerados os perfeitos e aqueles considerados os excepcionais, em geral aqueles deficientes. E segundo Novaes, esses corpos deficientes, considerados por este autor como os monstros, são produzidos pela sociedade para poder pensar a própria humanidade (p. 165)

No texto o autor se debruça sobre a questão do corpo dos atletas portadores de deficiência física que utilizam como prótese a cadeira de rodas, potencializando o uso deste objeto tecnológico e proporcionando aos sujeitos a superação de seus limites e aumento de sua performance.

O autor utiliza como aporte teórico os estudos culturais e a história dos corpos buscando demonstrar que com as tecnologias é possível inquietar e desestabilizar representações já naturalizadas pela cultura. Para Novaes (p. 166) a partir dos significados atribuídos à nossa aparência corporal reconhecemos a nossa identidade e esta se constrói por meio do olhar que temos sobre o outro e das diferenças estabelecidas entre estes, numa relação de disputa, tensão e poder.

O corpo apresentado pelo autor é o corpo marcado pela deformidade e que carrega a marca histórica de serem suprimidos, expulsos dos espaços culturais hegemônicos e que são pensados e observados com piedade e inferioridade. Embora desde o século XVI venha sendo tratado com mais humanidade, estes corpos ganham destaque na contemporaneidade com os avanços da biotecnologia, que lhes confere melhor performance.

Ao mesmo tempo o autor não deixa de considerar que estes corpos jamais se assemelharão aos corpos retos, ágeis e ajustados às posturas requeridas pela aceleração da sociedade da comunicação.  Contudo, não deixa de admitir que com o advento das tecnologias “antes de ser significado por marcas que promovem sua depreciação e ineficiência, o corpo dos cadeirantes revelam-se construídos a partir de equipamentos técnicos que reinventam sua própria humanidade” (172).

Quanto aos atletas paraolímpicos estes aparatos tecnológicos produzem novos significados e sentidos às suas vidas e à sociedade. As tecnologias nesse contexto revela-se como transgressora, assumindo caráter potencializador destruindo assim, os “obstáculos orgânicos impostos por sua limitação e que restringem suas possibilidades e ambições motoras nas rotinas da vida diária” (p.173).

Potencializar para o autor significa instrumentalizar o corpo e garantir a extensão dos limites e a manutenção da própria existência (p. 173). Nessa hibridação a ação performática tem o poder de resignificar aos próprios deficientes e de romper com a banalização e naturalização de suas possibilidades.

Por fim o autor apresenta como argumentos para a discussão a presença das tecnologias na vida dos portadores de deficiência como presságio da mortificação destes corpos e da precipitação de seu desaparecimento.  Pontua a relação corpo e tecnologia como condição de imortalidade do sujeito, deslocando a questão vida/morte do terreno do religioso para avaliá-la sobre ótica da tecnociência. 


sábado, 4 de dezembro de 2010

O CORPO CIBORGUE

Homero Luis Alves de Lima

O texto trata das possibilidades de transformação do corpo, proporcionadas pelos avanços científicos e tecnológicos. Ilustra as mutações corporais que vão de partes mecânicas à engenharia de tecidos, clonagem, xenotransplantes, nanotecnologia, nanomedicina, implantes de micromáquinas invisíveis nas artérias para realizar diagnósticos e combater doenças, robôes cirurgiões, consulta médicas e acompanhamento pela net, prontuários eletrônicos entre outros.

Para o  autor a digitalização da informação fez multiplicar e proliferar novas metáforas e imagens do corpo. A possibilidade de digitalização da vida permite as constantes atualizações na forma corpo. Nessa nova construção do sentido da vida, aparecem as vidas artificiais convergindo o que antes era visto de forma separada - corpo e máquina. Isso graças a mecanização do homem e virtualização das máquinas, apaga-se assim, as fronteiras do orgânico e do maquínico, do vivo e do não vivo, do humano e da máquina.

O questionamento clássico da filosofia - quem sou eu? Hoje é utilizado para decifrar onde começa o homem natural, onde começa o homem máquina. Esse homem máquina é também conhecido como ciborgues, o homem ampliado, que nasce para corresponder às expectativas dos cientistas que exploravam o espaço extraterrestre e se desenvolve no cinema de ficção cientifica e na pós - modernidade se configura como sujeito que alterou o seu corpo pela utilização de um órgão artificial, como o marca-passo, que utiliza drogas para resistir à doenças ou melhorar sua capacidade de pensar (p. 33/34) por exemplo.

A antropologia dos ciborgues trata do barramento das fronteiras homem/máquina, mente/corpo, natureza/cultura, agencia/instrumento. Essa vertente analítica critica o que qualifica de discurso antropológico centrado no humano e nas fundações (p. 34). Assim, coloca as máquinas e tecnologias como agencias que constroem subjetividades, gêneros, raça, sexualidades. Essa antropologia é vista perigosa pois, ao advogar o borramento da fronteiras entre humano e máquina, sociedade e ciência e tecnologia, o perigo é uma possível  cooptação ou melhor acomodação às estruturas de poder. Por outro lado o autor relata que as novas tecnologias apresentam potências libertadoras, um dos exemplos é a libertação da mulher, que ele denomina feminismo cibernético (p. 35).

Referenciando-se em Haraway (200), o autor comenta que a política do ciborgue é a luta pela linguagem, é a luta contra a comunicação perfeita, contra o código único que traduz todo significado de forma perfeita. Essa afirmativa coloca o ciborgue como sujeito do discurso, sujeito de direitos e questiona as verdades fundantes, as quais regularam as instituições durante séculos e séculos.

Como porta voz deste outro discurso é apresentada a ficção cientifica requisitada para funcionar como instrumento de legitimação desse novo discurso.  As novas tecnologias são assim, dispositivos que promovem prática do poder-saber que acabam por descentralizar os discursos e relativizar as verdades.
                                                                                                              
Longe dos discursos centrados na idéia de crítica às ferramentas tecnológicas, ou às suas limitações e problemas o autor centra seu trabalho nas possibilidades reais o que enriquece e torna interessante seu trabalho. Sua discussão traz elementos presentes no cotidiano e reflete os caminhos tomados pelos avanços no que se refere a relação estabelecida entre homem e máquinas.

OS PERCURSOS DO CORPO NA CULTURA CONTEMPORÂNEA

Malu Fontes (2009) descreve o que denomina como corpo canônico, um corpo publicizado especialmente pelos meios de comunicação de massa. É o corpo desejável e sinônimo de beleza, saúde e bem estar. Esse corpo é resultado de um conjunto de investimentos em práticas, modos e artifícios que visam alterar as configurações anatômicas e estéticas (p. 75).

O corpo canônico é especialmente o corpo feminino, que ilustra os discursos midiáticos é o simulacro da imagem do que seria o corpo ideal. Sua construção está relacionada à juventude e ao vigor, a força, a sensualidade e  a beleza. É o corpo produzido por um conjunto de técnicas e estratégias que vão desde o exercício físico às cirurgias plásticas, passando por dietas, consumo de cosméticos e determinados vestuários. É o corpo que se contrapõe ao que poderia ser chamado de corpo dissonante (o corpo deficiente por exemplo).
     
O corpo canônico é caracterizado como aquele que se propõe voluntariamente a um conjunto de práticas, técnicas, métodos de hábitos que têm como firme propósito reconfigurar o corpo biológico, transformando-o em um corpo potencializado em seus aspectos estéticos e em suas formas de gênero. Exemplo disso, os homens musculosos e mulheres de seios voluptuosos e curvas definidas (p. 77)

Esse corpo é resultado de culto de si, fenômeno social, amplamente notado após II Guerra Mundial, resultado das mutações sociológicas e das transformações ocasionada pelo progresso técnico cientifico. A busca da realização pessoal, se contrapõe à construção da identidade formulada mediante interações do sujeito com a família, a escola, a política e a religião.

O corpo que daí emerge é esculpido pela reengenharia da estrutura corporal. É como diz a autora “ sinônimo do modelo corporal, marcado pelo culto à chamada boa forma física, o corpo estandardizado onipresente nos meios de comunicação de massa”, mais precisamente nascido no final da década de 80.  (p. 82).

A produção deste corpo tem inicio quando o indivíduo opta pela adesão e submissão voluntária a um conjunto de práticas que visam alterar, aperfeiçoar, corrigir e reconstruir o corpo dito natural, potencializando-o no que se refere à saúde, disposição, força física, beleza, harmonia das curvas, volumes e formas, negando assim, os efeitos do tempo (p. 83).

O interessante dessa análise é que o corpo canônico não busca um padrão de beleza como comumente ocorre. É ele sinônimo de saudável, magro e sem distúrbio patológico. Produzido a partir de exercícios, medicamentos, tratamentos e incisões cirúrgicas radicais.

A produção do corpo canônico é reforçada pelos discursos que o sustenta. O Corpo canônico é “definido ou alterado pelo efeito do que se diz sobre ele” (86).  Essa afirmativa denota a importância do discurso na construção da identidade dos sujeitos. Mais do que isto, este discurso dá substância à existência dos sujeitos. 

O ESPETÁCULO DO RINGUE: O ESPORTE E A POTENCIALIZAÇÃO DE EFICIENTES CORPORAIS


Claudio Ricardo Freitas Nunes
Silvana Viladre Goellner

Potencializar, rejuvenescer, tornar-se produtivo. É esse o lema e resultado da racionalidade técnica aplicada ao corpo que agora é apresentado mais aprimorado e espetacularizado. Esse é o slogan utilizado pelos corpos produzidos pela cultura do esporte e sobretudo pela cultura fitness.

Segundo Nunes e Goellner (2009, p. 58) pensar o esporte e a cultura física como instâncias sociais a produzir novas eficiências corporais significa analisar o quanto representações idealizadas de saúde, de beleza estética e de performance estão colaborando para designar, na atualidade, os corpos que não se ajustam a essas eficiências construídas por nossa cultura como sendo deficientes e, por conseqüência, hierarquicamente inferiorizados ante a expressão de tamanha perfectibilidade.

Na produção destes corpos as “fronteiras entre pessoa e tecnologias estão absolutamente atravessadas” (p. 58). É importante lembrar que a produção dos corpos dos atletas e lutadores se dá de maneira diferençada da produção do corpo do sujeito que busca a boa forma física. O corpo destes sujeitos se forma mediante preparação física, técnicas, táticas, químicas e psicológicas (p. 60).

A produção do corpo do lutador perpassa pela escolha de indumentárias especificas e de acessórias que o caracterizam enquanto tal. Ao mesmo tempo em que protegem sua anatomia e intensificam sua performance. A preparação destes corpos passa pela apropriação de conhecimentos tecnológicos e da cientificização do treino (p. 61). São também elementos que caracterizam a produção deste corpo: suportar a dor das lesões, a preparação física desgastante, o empenho nos treinos, o domínio de diferentes técnicas, o usos de aparelhos e equipamentos, o desgaste corporal, os ferimentos a expectativa de confrontos públicos.

São também comuns na produção do corpo dos lutadores, o uso de substâncias que visam potencializar a performance, dentre estes temos os suplementos alimentares, utilizados para a recuperação do desgaste muscular com maior rapidez e para dar mais resistência nos treinos. Além dos suplementos alimentares, são substâncias de uso freqüente os anabolizantes. Produtos considerados ilícitos e de circulação proibida.

Há neste uso uma relação estreita com a potencialização e vitória, consequentemente, conquistas financeiras. As substâncias anabolizantes são utilizadas para ganho de força, aumento de massa muscular e diminuição do tempo de recuperação do corpo quando lesionado.  Na busca pela construção deste corpo é valido até mesmo o uso de produtos veterinários.

O resultado que se busca é a performance visual e estética em que os atletas  expressam através da anatomia de seus corpos, atributos como força, fibra, coragem e destemor (p. 72).  A respeito dessa construção é valido ainda pontuar o estilo e as marcas de roupa, as tatuagens tribais, o corte de cabelo e as modificações corporais. Todo esse conjunto visa produzir um sujeito potencialmente capaz de superar os limites do corpo biológico, por isso o uso de produtos, frutos dos avanços cientificos e tecnológicos , que têm como função tornar o sujeito alguém mais viril.

UMA ESTÉTICA PARA CORPOS MUTANTES

Os referenciais que construíram o corpo dos sujeitos até bem pouco tempo têm sido reelaborados. Esta é a discussão trazida por Couto (2009, p. 43). São palavras de ordem apresentada pelo paradigma da modernidade: a incerteza, a fluidez, a escolha, o provisório. Estes são os termos que organiza a visão dos sujeitos deste tempo. Nesse modelo de sociedade a metamorfose passa a ser a regra, as formas passam a ser entendidas como traços soltos, experimentos, sombras, indefinições, tudo está em movimento, assim também o corpo dos sujeitos desse tempo.

Segundo Couto (2009) esse movimento é resultante da aceleração provocada pelas transformações tecnológicas, pelas mudanças nos valores sociais. Hoje, o individuo passa a buscar e exercitar o que está pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, cedendo aos impulsos, aos prazeres fugazes, às sensações transitórias. E é nesse contexto que o autor nos convida a analisar o sujeito contemporâneo.

A proposta de Couto (2009) é, portanto, discutir a condição espetacular do corpo na sociedade contemporânea (p. 44) e destaca que o culto ao corpo está intimamente vinculado ao desejo de modificá-lo, essas modificações são resultantes das mutações tecnológicas que colocou também o corpo humano como matéria destinada a contínuas remodelagens tornado-o objeto de consumo, mercantilizado-o como qualquer outro produto. Sendo produto, então, corpo passa a ser visto a partir da lógica do mercado: apresenta prazo de validade e se torna algo provisório.

Nessa remodelagem o corpo se libertam dos vínculos religioso, filosófico, geográficos, temporais, morais e pedagógicos, e com os avanços tecnocientíficos o corpo vem se tornando livre até mesmo do patrimônio cultural e genético. Com isso o sujeito se permite eliminar qualquer insatisfação física e mental, assim, corrigir imperfeições, detalhes adequar a forma a um ideal, o ideal da juventude e da beleza. Além disso, os avanços tecnocientificos ainda permitem prevenir uma embrionária possibilidade de doença, alterar características desagradáveis, manter o corpo saudável e festejar a beleza e estes são serviços/produtos adquiridos no mercado.

A busca pela juventude e a beleza torna o corpo um objeto inacabado, disponível às reformas e capaz de aumentar seu nível de eficiência de e melhorar sua performance. Evitando tornar-se obsoleto o sujeito da contemporaneidade luta contra o envelhecimento e limitações impostas, por exemplo, pelas deficiências sejam elas genéticas ou provocadas por acidentes.

Ao mesmo tempo em que expressa o lado econômico da exploração do corpo como objeto de consumo o autor aponta benefícios apresentados pelos avanços tecnocientíficos, como a recuperação de sentidos, de movimentos ou superação de limitações ampliando assim, as capacidades físicas e mentais de sujeitos deficientes, com a implantação de próteses ou de nanoobjetos capazes de substituir órgãos. Com isso, podemos falar na produção artificial do homem.

A idéia de redesenhar o corpo assemelha-se a idéia de construção de histórias e roteiros, fazemos o esboço a lápis e reescrevemos as partes a medida em que a história se desenvolve. Superamos os determinismos e conferimos a nós, sujeitos, a possibilidade de modificar os nossos próprios corpos, conforme desejos pessoais. O corpo livre das velhas narrativas centradas na religião que levava à resignação é estimulado agora pelas tecnologias às constantes mutações.