Homero Luis Alves de Lima
O texto trata das possibilidades de transformação do corpo, proporcionadas pelos avanços científicos e tecnológicos. Ilustra as mutações corporais que vão de partes mecânicas à engenharia de tecidos, clonagem, xenotransplantes, nanotecnologia, nanomedicina, implantes de micromáquinas invisíveis nas artérias para realizar diagnósticos e combater doenças, robôes cirurgiões, consulta médicas e acompanhamento pela net, prontuários eletrônicos entre outros.
Para o autor a digitalização da informação fez multiplicar e proliferar novas metáforas e imagens do corpo. A possibilidade de digitalização da vida permite as constantes atualizações na forma corpo. Nessa nova construção do sentido da vida, aparecem as vidas artificiais convergindo o que antes era visto de forma separada - corpo e máquina. Isso graças a mecanização do homem e virtualização das máquinas, apaga-se assim, as fronteiras do orgânico e do maquínico, do vivo e do não vivo, do humano e da máquina.
O questionamento clássico da filosofia - quem sou eu? Hoje é utilizado para decifrar onde começa o homem natural, onde começa o homem máquina. Esse homem máquina é também conhecido como ciborgues, o homem ampliado, que nasce para corresponder às expectativas dos cientistas que exploravam o espaço extraterrestre e se desenvolve no cinema de ficção cientifica e na pós - modernidade se configura como sujeito que alterou o seu corpo pela utilização de um órgão artificial, como o marca-passo, que utiliza drogas para resistir à doenças ou melhorar sua capacidade de pensar (p. 33/34) por exemplo.
A antropologia dos ciborgues trata do barramento das fronteiras homem/máquina, mente/corpo, natureza/cultura, agencia/instrumento. Essa vertente analítica critica o que qualifica de discurso antropológico centrado no humano e nas fundações (p. 34). Assim, coloca as máquinas e tecnologias como agencias que constroem subjetividades, gêneros, raça, sexualidades. Essa antropologia é vista perigosa pois, ao advogar o borramento da fronteiras entre humano e máquina, sociedade e ciência e tecnologia, o perigo é uma possível cooptação ou melhor acomodação às estruturas de poder. Por outro lado o autor relata que as novas tecnologias apresentam potências libertadoras, um dos exemplos é a libertação da mulher, que ele denomina feminismo cibernético (p. 35).
Referenciando-se em Haraway (200), o autor comenta que a política do ciborgue é a luta pela linguagem, é a luta contra a comunicação perfeita, contra o código único que traduz todo significado de forma perfeita. Essa afirmativa coloca o ciborgue como sujeito do discurso, sujeito de direitos e questiona as verdades fundantes, as quais regularam as instituições durante séculos e séculos.
Como porta voz deste outro discurso é apresentada a ficção cientifica requisitada para funcionar como instrumento de legitimação desse novo discurso. As novas tecnologias são assim, dispositivos que promovem prática do poder-saber que acabam por descentralizar os discursos e relativizar as verdades.
Longe dos discursos centrados na idéia de crítica às ferramentas tecnológicas, ou às suas limitações e problemas o autor centra seu trabalho nas possibilidades reais o que enriquece e torna interessante seu trabalho. Sua discussão traz elementos presentes no cotidiano e reflete os caminhos tomados pelos avanços no que se refere a relação estabelecida entre homem e máquinas.
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