Inseridos numa dada cultura o corpo objeto sócio-cultural que representa essa mesma sociedade está sempre sujeito a avaliação de seus membros. Há em cada sociedade modelos de corpos que são considerados os perfeitos e aqueles considerados os excepcionais, em geral aqueles deficientes. E segundo Novaes, esses corpos deficientes, considerados por este autor como os monstros, são produzidos pela sociedade para poder pensar a própria humanidade (p. 165)
No texto o autor se debruça sobre a questão do corpo dos atletas portadores de deficiência física que utilizam como prótese a cadeira de rodas, potencializando o uso deste objeto tecnológico e proporcionando aos sujeitos a superação de seus limites e aumento de sua performance.
O autor utiliza como aporte teórico os estudos culturais e a história dos corpos buscando demonstrar que com as tecnologias é possível inquietar e desestabilizar representações já naturalizadas pela cultura. Para Novaes (p. 166) a partir dos significados atribuídos à nossa aparência corporal reconhecemos a nossa identidade e esta se constrói por meio do olhar que temos sobre o outro e das diferenças estabelecidas entre estes, numa relação de disputa, tensão e poder.
O corpo apresentado pelo autor é o corpo marcado pela deformidade e que carrega a marca histórica de serem suprimidos, expulsos dos espaços culturais hegemônicos e que são pensados e observados com piedade e inferioridade. Embora desde o século XVI venha sendo tratado com mais humanidade, estes corpos ganham destaque na contemporaneidade com os avanços da biotecnologia, que lhes confere melhor performance.
Ao mesmo tempo o autor não deixa de considerar que estes corpos jamais se assemelharão aos corpos retos, ágeis e ajustados às posturas requeridas pela aceleração da sociedade da comunicação. Contudo, não deixa de admitir que com o advento das tecnologias “antes de ser significado por marcas que promovem sua depreciação e ineficiência, o corpo dos cadeirantes revelam-se construídos a partir de equipamentos técnicos que reinventam sua própria humanidade” (172).
Quanto aos atletas paraolímpicos estes aparatos tecnológicos produzem novos significados e sentidos às suas vidas e à sociedade. As tecnologias nesse contexto revela-se como transgressora, assumindo caráter potencializador destruindo assim, os “obstáculos orgânicos impostos por sua limitação e que restringem suas possibilidades e ambições motoras nas rotinas da vida diária” (p.173).
Potencializar para o autor significa instrumentalizar o corpo e garantir a extensão dos limites e a manutenção da própria existência (p. 173). Nessa hibridação a ação performática tem o poder de resignificar aos próprios deficientes e de romper com a banalização e naturalização de suas possibilidades.
Por fim o autor apresenta como argumentos para a discussão a presença das tecnologias na vida dos portadores de deficiência como presságio da mortificação destes corpos e da precipitação de seu desaparecimento. Pontua a relação corpo e tecnologia como condição de imortalidade do sujeito, deslocando a questão vida/morte do terreno do religioso para avaliá-la sobre ótica da tecnociência.