Os referenciais que construíram o corpo dos sujeitos até bem pouco tempo têm sido reelaborados. Esta é a discussão trazida por Couto (2009, p. 43). São palavras de ordem apresentada pelo paradigma da modernidade: a incerteza, a fluidez, a escolha, o provisório. Estes são os termos que organiza a visão dos sujeitos deste tempo. Nesse modelo de sociedade a metamorfose passa a ser a regra, as formas passam a ser entendidas como traços soltos, experimentos, sombras, indefinições, tudo está em movimento, assim também o corpo dos sujeitos desse tempo.
Segundo Couto (2009) esse movimento é resultante da aceleração provocada pelas transformações tecnológicas, pelas mudanças nos valores sociais. Hoje, o individuo passa a buscar e exercitar o que está pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, cedendo aos impulsos, aos prazeres fugazes, às sensações transitórias. E é nesse contexto que o autor nos convida a analisar o sujeito contemporâneo.
A proposta de Couto (2009) é, portanto, discutir a condição espetacular do corpo na sociedade contemporânea (p. 44) e destaca que o culto ao corpo está intimamente vinculado ao desejo de modificá-lo, essas modificações são resultantes das mutações tecnológicas que colocou também o corpo humano como matéria destinada a contínuas remodelagens tornado-o objeto de consumo, mercantilizado-o como qualquer outro produto. Sendo produto, então, corpo passa a ser visto a partir da lógica do mercado: apresenta prazo de validade e se torna algo provisório.
Nessa remodelagem o corpo se libertam dos vínculos religioso, filosófico, geográficos, temporais, morais e pedagógicos, e com os avanços tecnocientíficos o corpo vem se tornando livre até mesmo do patrimônio cultural e genético. Com isso o sujeito se permite eliminar qualquer insatisfação física e mental, assim, corrigir imperfeições, detalhes adequar a forma a um ideal, o ideal da juventude e da beleza. Além disso, os avanços tecnocientificos ainda permitem prevenir uma embrionária possibilidade de doença, alterar características desagradáveis, manter o corpo saudável e festejar a beleza e estes são serviços/produtos adquiridos no mercado.
A busca pela juventude e a beleza torna o corpo um objeto inacabado, disponível às reformas e capaz de aumentar seu nível de eficiência de e melhorar sua performance. Evitando tornar-se obsoleto o sujeito da contemporaneidade luta contra o envelhecimento e limitações impostas, por exemplo, pelas deficiências sejam elas genéticas ou provocadas por acidentes.
Ao mesmo tempo em que expressa o lado econômico da exploração do corpo como objeto de consumo o autor aponta benefícios apresentados pelos avanços tecnocientíficos, como a recuperação de sentidos, de movimentos ou superação de limitações ampliando assim, as capacidades físicas e mentais de sujeitos deficientes, com a implantação de próteses ou de nanoobjetos capazes de substituir órgãos. Com isso, podemos falar na produção artificial do homem.
A idéia de redesenhar o corpo assemelha-se a idéia de construção de histórias e roteiros, fazemos o esboço a lápis e reescrevemos as partes a medida em que a história se desenvolve. Superamos os determinismos e conferimos a nós, sujeitos, a possibilidade de modificar os nossos próprios corpos, conforme desejos pessoais. O corpo livre das velhas narrativas centradas na religião que levava à resignação é estimulado agora pelas tecnologias às constantes mutações.
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